quinta-feira, agosto 21, 2008

ÚLTIMA PARADA: ILHA DA MADEIRA

Voamos para a Madeira pela TAP... Só eles fazem esse vôo, por enquanto.
A viagem é curta, menos de duas horas.
Mas tem lanchinho!
E foi justamente na hora do lanchinho que vivemos a situação mais engraçada da viagem: meu pai pediu como bebida algo light, e ainda frisou sem açúcar!
Os comissários ficaram agitados. Faziam gestos uns para os outros, pararam de servir o restante do pessoal... A mim parecia incrível que não houvesse nenhuma bebida light no carrinho.
Por fim, um dos comissários chegou triunfante com a bebida pedida: um copo de leite!
Vejam só confundiram light com leite, que eles pronunciam laite.
Meu pai fez cara de paisagem e bebeu seu leitinho calado.
Ana e eu tivemos um enorme acesso de riso. Foi muito divertido!
Mas, para acabar com nossa graça, o pouso no moderno aeroporto de Funchal foi de meter medo.
O avião balançava em todos os sentidos: pra direita, pra esquerda, pra cima, pra baixo.
Dizem que é comum ali... Por causa dos ventos, picos, etc... Ai, ai!
Funchal, a capital da ilha, comemora nesse ano seus 500 anos de existência.
A cidade estava em festa!
Bem, nossa viagem, embora muitos não acreditem, tinha também um objetivo profissional. Aí está a prova: Ana Maria, apresentando seu texto "Viagem entre Brasil e Portugal".
A comunicação falava sobre a premiação do livro Viagem, de Cecília Meireles.
Manhã de 05 de agosto, num congresso da Associação Internacional de Lusitanistas.
E não foi só Ana quem compareceu às sessões do congresso. Meu pai e eu também estivemos por lá. A prova disso está no Jornal da Madeira, edição de 10/08/2008, que traz uma foto minha entre os presentes à cerimônia de abertura do congresso. Acreditem!
No mais, foi um vai-e-vem pelos picos e cidades da ilha, por estreitas boas estradas em zig-zag, coalhadas de túneis modernos - mais de 150, dizem! -, alguns deles medindo mais de 2 km.
E a cada parada um mirante, uma cidadezinha perdida, um pico.
Entre os mais altos que visitamos, estavam o Arieiro, com 1.810m e o Eira do Serrado. Altos de dar medo!A ilha é linda!
De dia, com flores por todo lado:

Ana se esbaldou fotografando-as.
Não é à toa que o presidente da Madeira, no posto há 30 anos, se chama Alberto João Jardim...E de noite... com suas luzes de presépio. Prato cheio para as lentes de Ana, também:
E o mar azul, lindo no horizonte.
Numa das manhãs partimos com o barco Santa Maria - uma réplica do navio de Cristóvão Colombo - para um passeio pela costa do Funchal. Fomos até o Cabo Girão, com uma passadinha por um reduto de golfinhos, que nos receberam alegremente. Mas nossos amiguinhos foram logo esquecidos, com a aparição de uma baleia, que emergiu com seu corpo cinzento, soprando água pra todo lado. Diz o manual que nossos marinheiros traziam, que um animal adulto daquela raça pode chegar a 20 m de comprimento e pesar 80.000 kg. Uau! Vimos só um pedacinho dela... A foto que Ana conseguiu está aí, sobreposta à folha do dito manual, que Ana também fotografou:
Num outro passeio, voltamos ao Cabo Girão, por terra. E lá de cima pudemos ver o Santa Maria em seu passeio vespertino, perdido no azul das águas.

Estávamos voltando de um giro pela parte noroeste da ilha. Vínhamos de molhar nossos pezinhos nas piscinas de Porto Moniz:
Aliás, entre um passeio e outro, chegamos a dar quase que a volta toda na ilha. Vejam:Num dos passeios, fomos pelo centro da ilha até Santana, a nordeste, e voltamos pela costa.
No outro dia, fomos também pelo centro até Porto Moniz, passando por São Vicente, e voltamos passando por Paúl da Serra e Ponta do Sol. Só faltou explorar, mesmo, o bico mais ocidental da ilha.
Uma das características locais é um sistema de irrigação, chamado de levadas. São canais que retalham a ilha levando a água da parte norte - mais úmida - para o sul - mais seco.
Ao lado das levadas há sempre um caminho. Vimos várias e caminhamos ao lado de uma delas, entre Morro do Pico e Queimadas.
Bem do centro de Funchal, parte um teleférico - mais um!!!! - que sobe a 550m de altitude, até próximo da Igreja de N. S. do Monte.
Fomos!
Para os que não querem descer com o mesmo teleférico pelo qual subiram, há uma alternativa. Mais aventureira e tão arriscada quanto... São carrinhos de vime que descem escorregando ladeira abaixo. Vejam:
Vimos, filmamos, fotografamos, mas não nos arriscamos...
Comemos bem na ilha.
E não deixamos de experimentar a espetada de carne, prato típico do lugar, que não foi assim tão típico, pois a carne vinha espetada em espetos de metal, no lugar de espetos feitos com os galhos do loureiro, como manda a tradição madeirense. Modernidades!
Modernidade também é o sinal de internet sem fio disponível em vários locais públicos da cidade. É só sentar num banco da praça e acessar. Usamos e aprovamos!
O dia da partida começou cedo. Às 4h15 um táxi nos pegou no Hotel do Carmo e nos levou de volta ao aeroporto. O vôo saiu às 6 da manhã.
Chegamos cedo a Lisboa... e tínhamos o dia todo pela frente. Nosso vôo para o Brasil sairia às 8 da noite. Descansamos no Residencial Beira Minho - nossa casa em Lisboa. Almoçamos nas Portas de Santo Antão, tomamos um café na Brasileira, ao lado da estátua de Pessoa, e outro na Namur, com Maria Teresa Horta. Pegamos nossa mala extra que havia ficado guardada no Hotel Alif desde antes de nossa ida para a Madeira e rumamos para o aeroporto lisboeta.
No balcão da Ibéria, uma surpresa: meu nome não constava na lista de passageiros.
Problemas informáticos, disseram, depois de algum tempo e muitos telefonemas.
E chegaram até a me "ameaçar" com uma viagem na primeira classe... Mas a "ameaça" não se cumpriu e viajei na velha e boa classe turística, mesmo.
O vôo saiu atrasado e, com isso, a conexão em Madri foi apressada.
Com essas e mais aquelas, algumas malas ficaram para trás.
A de Ana estava entre elas. Soubemos da notícia assim que chegamos a Guarulhos.
Fazer o quê? Esperar a entrega, prometida para o dia seguinte pela manhã.
Chegou só à noite...
E assim, terminamos nosso périplo de 33 dias por terras européias.
As histórias foram contadas aqui. Algumas no calor da hora. Outras, depois.
As fotos, foram colocadas nos álbuns ainda durante a viagem. Estão aí:
Europa 2008
Europa 2008
Outras, colocadas no ar já em casa, também estão aí:

E fico ainda devendo um relato sobre o show de Chico César em Roma e outro sobre a Parada Gay no Porto.
Vou cumprir!
Volte dentro de alguns dias pra ler mais essas histórias.

sábado, agosto 16, 2008

DE VOLTA ÀS TERRAS PORTUGUESAS

Era manhã de quarta feira, 30 de julho, quando chegamos à estação Santa Apolônia, em Lisboa.
Enquanto esperávamos a liberação dos quartos no Hotel Alif, fomos até a Estação Rodoviária Sete Rios para comprar a passagem Lisboa-Sevilha que meu pai usaria na semana seguinte.
Ao chegar, um susto: desapareceram uns 200 euros que meu pai levava consigo. Como? Ninguém sabe, ninguém viu. Talvez no metrô apinhado de gente que nos levou até lá.
Hora do almoço. Lá fomos nós até o Cais do Sodré para pegar um ferry que nos levaria até Cacilhas, do outro lado do Tejo.
Uma pequena caminhada pela margem deserta do rio e chegamos ao destino: o restaurante Atira-te ao rio.
Ali a comida não é o pricipal atrativo. O que vale mesmo é a vista que se tem de Lisboa, do rio e da Ponte 25 de Abril.E já que o assunto é comer em Lisboa, aproveito pra contar dos outros lugares conhecidos e novos onde estivemos na capital portuguesa.
Voltamos ao Restaurante Maio e ao Café A Brasileira, no bairro alto.
Comemos nas mesas de rua das Portas de Santo Antão, no centro velho.
Revisitamos o Restaurante Rio Coura, perto da Sé lisboeta, lugar simples e gostoso que descobríramos numa viagem anterior.
Com Maria Teresa Horta, poetisa portuguesa e nossa amiga querida, conhecemos o restaurante Tia Matilde e o Café Namur, ambos nas imediações do Campo Pequeno.
E, em grande estilo, almoçamos na Cozinha Velha do Palácio de Queluz, também com Maria Teresa e Luís, seu marido.
E mais, no centro da cidade, lugar mais tradicional que conhecemos, tomamos uma Ginjinha.
A Ginjinha é um licor feito com ginja, fruta parecida com uma cereja. A tradição manda que se tome a Ginginha com elas, ou seja, com algumas frutinhas dentro do copo. Não contrariamos a tradição, claro!
Para alimentar o espírito, fomos ao Museu Calouste Gulbenkian, acompanhadas de Maria Teresa. E visitamos sua casa.
Andamos pelas cidade: livrarias, lojas, praças, metrô, ônibus, shopping, cybercafé, mirantes e bairro da Alfama, com suas ruelas estreitas.
Na sexta-feira, 1º de agosto, alugamos um carro e demos uma escapada a Tomar, Batalha, Alcobaça e Óbidos, nossas velhas conhecidas, que queríamos rever. Foram centenas de quilômetros de andanças pelas estradas portuguesas.À beira de Batalha, almoçamos num restaurante agradável, participante da Rota Gastronômica Serrana, o Esplanada do Alto do Reguengo, na freguesia de Reguengo do Fetal.
E em Batalha, voltamos à Pastelaria Oliveira, nosso conhecido de outra feita, quando tomamos um lanche e trouxemos um pratinho do local, como recordação. É claro que isso não foi considerado um roubo, já que Ana Maria, sendo Oliveira, é co-proprietária do empreendimento...

Chegamos a Óbidos já no final da tarde, justo a tempo de percorrer sua rua principal, entrar em todas a lojinhas, fotografar as belezas do lugar e sentar para saborear uma ginginha típica do lugar.
De Lisboa, partimos, no domingo, para a Ilha da Madeira, última etapa de nosso caminho europeu nesse verão de 2008.
Ao longo da viagem, fomos acumulando fotos em dois álbuns virtuais, um de Ana e outro meu. Elas estão aí, com fotos de todo o nosso percurso:
Europa 2008
Europa 2008
Já em casa, fiz uma nova seleção, com mais algumas fotos. Estão também no ar:

quinta-feira, agosto 14, 2008

CAMINHO DE SANTIAGO - FINAL

Exceto raras excessões, comíamos o menu do peregrino nas cidades por onde passávamos. Isso constava de uma entrada, um prato principal, sobremesa, pão e bebida.
Para beber, podíamos escolher entre vinho e água. Esteves sempre tomava água. Eu sempre escolhia vinho. E como éramos só os dois, ele recebia uma garrafa de água inteira e eu uma de vinho. Dá pra imaginar o quanto bebi nesse período?
As piores partes do caminho para mim eram as subidas. E houve muitas. Geralmente Esteves chegava ao alto dos morros bem antes de mim. Descansava enquanto me esperava. Quando eu chegava, já estava disposto continuar a caminhada... (risos)
Ele precisou de paciência para agüentar meu ritmo!
...................
Naquele sábado, 14 de agosto de 1998, saímos da cama muito cedo, bem antes do nascer do sol e nos pusemos a caminho.
De Arca até Santiago de Compostela tínhamos que vencer 18 km. Eles foram feitos em 5 horas.
Caminhamos pelas ruas e calçadas de San Antón, Amenal, San Paio, Lavacolla, Vilamaior e San Marcos.
Passamos pelo Monte do Gozo, último albergue para peregrinos do Caminho, e demos graças a Deus por ter decidido parar em Arca: o Monte do Gozo não nos pareceu nada acolhedor.
Essa foi a primeira visão que tivemos de Santiago.
Ainda na periferia da cidade, paramos num bar para nos prepararmos para a entrada triunfal na Praça do Obradoiro.
Pusemos roupas limpas e continuamos a caminhada até a frente da Catedral.
Reencontramos amigos feitos pelo caminho e ficamos ali, olhando para aquelas torres milenares.
Pouco tempo depois começou a missa dos peregrinos, com direito a botafumeiro e tudo!
Confesso que o tal botafumeiro me decepcionou um pouco.
Eu esperava um objeto imenso... Coisa da minha cabeça!
Mas é bem bonita a cerimônia.
Essas imagens dirão mais que palavras. Veja, só não vai dar pra sentir o cheirinho do incenso!
Mais tarde, fomos em busca da nossa Compostela: uma espécie de certificado de que tínhamos caminhado mesmo por todos aqueles 763 km, durante 222 horas e meia, passando por 220 cidades, em 31 dias.
Depois, já acomodados num quarto alugado na casa de Dona Rosalía, saímos para explorar a cidade. Em cada canto encvontrávamos alguém que já tínhamos visto pelo caminho.
Ficamos em Santiago até o dia seguinte, quando pegamos um trem noturno de volta a Madri. E de lá seguimos para outros caminhos... de carro!
...................
Termino estes relatos com parte da mensagem que fecha o álbum sobre o Caminho com o qual Esteves me presenteou em 2000:

"O Caminho de Santiago é uma imagem da vida.Caminhar é viver feliz, diz o velho refrão. Tudo o que ocorre nestes dias de caminhada é o que pode acontecer durante a trajetória da vida das pessoas. Assim, companheiro é aquele que comparte mais que o pão, o caminho."

domingo, agosto 10, 2008

SIGÜENZA: UMA CIDADE MEDIEVAL

A idéia de ir a Sigüenza surgiu ainda em São Paulo, quando, consultando horários dos trens espanhóis, dei com um pacote oferecido pela própria companhia férrea: era o Trem Medieval, que prometia um dia inesquecível na tal cidade, visitando todos os pontos turísticos.
Uma pesquisa mais aprofundada revelou que durante o mês de julho o pacote não estava disponível.
Pensamos, então, em fazer o passeio por conta própria.
E fomos.
Com a bagagem seguramente depositada no bagageiro da estação Chamartín, tomamos o trem para Sigüenza.
Já na partida, uma surpresa: Maria Jesus, Maria Teresa e Dolores, três espanholas, companheiras de viagem de meu pai pelas terras do Reino Unido, sentaram-se bem ao nosso lado, como se tivéssemos marcado um encontro no trem para Sigüenza.
Quase duas horas depois, desembarcávamos na pequena estação da cidade medieval.
E foi ali mesmo que vimos a primeira imagem do Doncel: o jovem comendador Martín Vázquez de Arce, guerreiro que lutou em Granada contra os mouros e teve seu túmulo adornado por uma imagem incomum. Enquanto todos os mortos são representados deitados, com as mãos cruzadas, o nosso Doncel aparece recostado, lendo.
Caminhando pela cidade, chegamos à Catedral-Fortaleza justo a tempo de participar de uma visita guiada à capela do Doncel, outras capelas tumulares, Sacristia de Las Cabezas - cujo teto é todo ornamentado com cabeças - e claustro.
Hora de almoçar. Grande parte dos restaurantes da cidade estava fechada. Férias de verão!
Acabamos almoçando num restaurante no interior da Casa do Doncel, restaurada e mantida pela universidade.
Seguindo a caminhada, fomos ter a um castelo hoje transformado em Parador - hotel de luxo.
Visitamos a Praça de Armas desse antigo castelo e iniciamos o caminho de volta à estação.
Desviamos ligeiramente para dar uma passadinha na Igreja de Nossa Senhora dos Huertos e convento das clarissas, onde compramos trufas e bolachinhas preparadas pelas freiras. Boas!
Curiosa era a forma como se realizava essa compra: tudo se dava através de uma roda.
Tocando uma campainha, uma voz respondia:
- Louvada seja a Virgem Maria Puríssima! O que deseja?
Fazia-se o pedido e a freira colocava o produto na roda.
O dinheiro para o pagamento era colocado também ali. E o troco vinha também pela roda.
Voltamos para Madri também em companhia das três espanholas.
Em Madri, aproveitamos o tempo que nos restava até a hora da partida do trem hotel para recuperar a bagagem e tomar um lanche na sala vip da estação., reservada apenas aos que viajavam em classe preferente nos trens hotéis da RENFE.
Tão logo o Lusitânia adentrou a plataforma, tratamos de embarcar e nos acomodar em nossas pequenas cabines.
A viagem seria longa, mais ou menos 9 horas.
Depois de um passeio pelo trem, nos deitamos para uma noite de sono sobre os trilhos.
Na manhã seguinte, tomamos o café da manhã no vagão-restaurante do trem e, sentados em nossa cabine já devidamente transformadas em sala de visitas - as camas viravam sofás -, aguardamos a chegada a Santa Apolônia, estação central de Lisboa.
As fotos estão aí:

Europa 2008
Europa 2008

sábado, agosto 09, 2008

CAMINHO DE SANTIAGO - PARTE 6

Pesquisando escritos e fotos para fazer esses relatos comemorativos aos 10 anos do nosso Caminho de Santiago, enviei a Esteves uma foto do belo Monastério dos Beneditino de Samos, que encontrei na net. Ele identificou na hora.
E ainda me brindou com um trecho do seu diário, escrito nesse vigésimo sexto dia de caminhada e um poema, também escrito no calor da hora.
Pedi autorização e reproduzo aqui as duas escritas:
09/08/98. O Cebreiro – Samos (26 dia)
Saída: 6:40 - chegada 15 h 31 km

"Decidimos levantar com o grupo de peregrinos [todos os dias levantamos um pouco depois] e seguir cedo. Ontem à noite compramos algumas coisas para comer de manhã e saímos ainda escuro à luz da lua. A experiência foi interessante mas serviu para mostrar que a caminhada noturna que havíamos pensado fazer é fantasia. Pouco se conseguia ver apesar da lua cheia e seria fácil perder-se. Pouco depois amanheceu. Houve uns instantes em que compartiram o céu de um lado a lua, do outro o sol. Subimos um pouco mais e chegamos ao Morro de San Roque ao lado uma estátua (ilegível). Subimos um pouco mais e chegamos ao ponto mais alto do caminho – o Porto de Nossa Senhora do Poyo. A Carmem diz que tudo é enrolação, que sempre dizem que estamos no ponto mais alto, mas continuamos subindo. Desta vez foi verdade. O resto do dia descemos, grandes descidas rodeando as montanhas, pelas “corredoiras” galegas, caminhos antigos entre dois muros de pedra coroados de imensas castanheiras e carvalhos, cenário de duendes e magos. Uma série de povoados abaixo e chegamos a Triacastela, a primeira cidade de certo porte- também é pequena – já às margens do Sarria. Aqui termina a primeira fase; cinco horas de dura caminhada. Há duas opções: ir diretamente a Sarria ou ir a Samos – onde há um interessante mosteiro beneditino do Séc. XV – antes de Sarria. Optamos pela segunda e começamos a seguir o curso do rio Sarria [ou será Oribio?]. Durante três horas seguimos o curso bucólico deste rio, que tem as margens cercadas de bosques, alguns choupos altíssimos e belos, levantados em direção ao céu. O primeiro povoado – até então seguíamos o rio pela rodovia, a partir de então será pelas corredoiras – é San Cristobo. Há ainda um adjetivo que não anotamos e que não sei se será fácil descobrir. San Cristobo não consta dos mapas. O rio o corta pelo meio – o Saria ou o Ouribio, há que se confirmar depois – numa paisagem idílica. Poucas casas – dez ou vinte – castanheiras ancestrais, figueiras perfumadas, hortelã silvestre crescendo pelas margens do rio – um riacho, melhor -. Vacas, hortas de couve, alguma macieira, lavouras de milho. Um lavadouro de roupas – o rio foi ligeiramente represado. Uma visão idílica, o paraíso terrestre cheirando a estrume de vaca. Pela primeira vez no caminho – depois de Sambol – e por sugestão da Carmem – decidimos descansar um pouco repousando os pés dentro da água fria: susto inicial, depois prazer.
O caminho segue ainda sempre entre corredoiras passando uma série de povoados cujos nomes não chegamos a saber, ou não anotamos. Chega-se a Samos – de cima vê-se o pequeno povoado e o monumental mosteiro com dois pátios imensos que o guarda quase. Monumental obra embora de pouco interesse artístico. A visita foi lenta, quase uma hora com o simpático monge andando de costas e explicando medíocres painéis colocados nas paredes depois da restauração feita em decorrência do incêndio de 1951 que destruiu a bela Biblioteca beneditina. O albergue está no mesmo monastério, instalações precárias e superlotadas. O caminho, para quem fica nos abrigos começa a ficar complicado: há multidões em cada albergue. Boa parte espanhóis, quase todos meros turistas buscando aventuras baratas.

Triacastela
( El túnelI)
Entre dos muros de piedras antiguas,
colmados por ancestros castaños
y vetustos carballos,
se estrecha el camino.

Del otro lado del túnel,
surge un caballero templario,
quemadas melenas jugando al viento,
rico en fuerza y belleza,
noble de carácter
y me abre las puertas de sus tres castillos.


Os povoados acima e abaixo a que Esteves se refere são: Limares, Hospital da Condesa, Padornelo, Alto del Pou, Fonfría, Viduedo, Filloval, Pasantes e Ramil, antes de chegar a Triacastela.
E o povoado à margem do rio Ouribio é San Cristobo do Real, descobrimos no google.
Além disso, ainda passamos por Renche e Real, antes de cumprir os 31 km desse dia, que fizemos em 8 horas e meia.
E o monastério de Samos foi tudo de bom...
E já que uso a narrativa e a poesia de Esteves, para esse dia. Coloco também aqui uma de suas fotos - a do monastério – que ganhei de presente em 2000, num álbum caprichado com alguns poemas e fotos desse caminho.
No vigésimo sétimo dia, caminhamos 8 horas. Foram 26 km deixando para trás Teiguin, Santa Eulalia de Pascais, Frollais, Sarria, Villi, Barbadelo, Rente, Mercado da Serra, Leimán, Peruscallo, Lavandeira, Cortinas, Brea e Morgade, até chegar ao nosso destino: Ferreros.
Num boteco próximo do albergue conversamos com um rapaz que nunca tinha ouvido falar em São Paulo! Pode? Uma das maiores cidades do mundo!!!!!
O dia seguinte foi pesado: caminhamos durante 10 horas. Foram 34 km para chegar a Palas de Rei. Era vigésimo oitavo dia.
Inúmeros povoados galegos desfilaram sob nossos olhos e nossos pés cansados: Mirallos, Pena, Couto, Roza, Moimentos, Catarelos, Mercadoiro, Moutas, Parrocha, Vilacha, Portomarín, Toxibo, Gonzar, Castromaior, Hospital da Cruz, Ventas de Narón, Prebisa, Lameitos, Ligonde, Ereixe, Portos Lestedo, Valor, Mamurria, Brea e Rosário.
Esses povoados eram, na sua maioria, essencialmente rurais. Foi aí que conheci os hórreos, construções em madeira e pedra destinadas ao armazenamento de grãos. Aí está um hórreo fotografado em Toxibo:
Portomarín, às margens do Rio Minho, tem um história curiosa: em 1962 a cidade original ficou submersa por causa da construção da represa de Belesar. Nessa oportunidade, todos os monumentos da antiga Portomarín foram transferidos para uma parte mais alta, onde hoje fica a cidade. Dizem que a Igreja foi desmontada pedra a pedra e reconstruída no alto do morro. Dá pra imaginar o trabalho que tiveram?

Como não fotografei a tal igreja quando passei por lá, tomei emprestada essa de Eduardo Hoepers.

Fica aí o link para quem quiser ver mais fotos desse peregrino:
Fotos de Eduardo Hoepers
Mais um dia: o vigésimo nono.
Passamos por Carballal, San Xulián do Camiño, Pallota, Outeiro da Ponte, Pontecampaña, Casanova, Campanilla, Coto, Leboreiro, Disicabo, Furelos, Melide, A Peroxa, Boente, Castañeda, Pedrido e Rio, para chegar a Ribadiso, 28 km e 7 horas e meia de caminhada depois.
No meio do caminho, uma parada em Melide para comer o famoso polvo à galega.
A rua principal da cidade é um desfile de caldeirões com polvos fumegantes.
Como não fotografei a iguaria, tomei mais uma foto emprestada de Eduardo Hoepers
O albergue de Ribadiso fica às margens do rio Iso.
Ali voltamos a encontrar um grupo de peregrinos de Málaga com os quais já havíamos cruzado em outros albergues. Nesse encontro, como já estávamos chegando ao final da caminhada, os malagueños fizeram um jantar de despedida no albergue. Só alegria!
Mais um dia de caminhada: o trigésimo!
Depois de caminhar 23 km por Arzúa, As Barrosas, Raido, Catorbe, Pereiriña, Calzada, Boa Vista, Salceda, Rãs, Xen, Brea, Empalme, Santa Irene, Rua e Burgo, chegamos a Arca, 6 horas depois. Aí foi nossa vez de preparar um jantar de despedida.
Na verdade, quem cozinhou foi Esteves. Eu só fiquei dando apoio.
E fomos deitar cedo porque o dia seguinte seria o último. Chegaríamos, afinal, a Santiago de Compostela... e queríamos chegar cedo, o que significava sair antes do nascer do sol.

quinta-feira, agosto 07, 2008

DE VOLTA A MADRI

Madri nos esperava com seus dias quentes naquele fim de semana prolongado.
Chegamos de Roma na véspera do feriado da sexta-feira, 25 de julho, dia de Santiago.
Voltamos ao Hostal Sonsoles, que já é como se fosse a nossa casa em Madri.
Aproveitamos os dias para andar pela cidade: de novo El Corte Inglés, Museo del Jamón, Chueca, Plaza Mayor e Restaurante Puerto Rico, que já se preparava para fechar durante as férias de verão. Assim, só pudemos almoçar lá na sexta-feira e no sábado. Pena!
No domingo saímos em um grupo organizado para visitar San Lorenzo del Escorial, palácio e monastério. Valle de los Caídos fazia parte do pacote.
Lá fomos nós ao mausoléu de Franco e de seus comparsas.
E o fim de tarde foi no Parque do Retiro.
Segunda-feira começamos o dia indo à Ribeira dos Curtidores, lugar que já foi tradicional na venda de malas, mochilas e outros artigos de viagem.
Fomos comprar uma nova mala para abrigar tudo o que havíamos comprado durante a viagem. E não era pouco...
Saímos de lá com uma mala de quatro rodas, daquelas que andam quase sozinhas.
Demos a ela o nome de Lena... derivado de azul de metileno...
A mala é azul.
No horário mais quente do dia, protegidas pelo ar condicionado do nosso quarto no Sonsoles, fizemos a arrumação geral da bagagem.
Lena conseguiu abrigar as compras com certa dificuldade...
E já nessa mesma noite a levamos para o bagageiro na estação de Chamartín.
Terminamos o dia no aeroporto, à espera de meu pai que vinha de Edimburgo (Escócia) pelas asas da British, que – pasmem – atrasou em mais ou menos meia hora seu pouso em Barajas.
Sua Majestade já não tem os mesmos súditos de antigamente!
No dia seguinte, o último que passaríamos em terras espanholas, saímos cedo do hotel, carregando toda a nossa tralha.
De metrô alcançamos a estação ferroviária de Chamartín, onde deixamos a bagagem e fomos passar o dia em Sigüenza.
Naquela noite, embarcaríamos no trem hotel Lusitânia, com destino a Lisboa.
Há fotos de todas as etapas da viagem em nossos álbuns, que estão sendo atualizados na medida do possível:
Europa 2008

domingo, agosto 03, 2008

CAMINHO DE SANTIAGO - PARTE 5

3 de agosto, vigésimo dia de caminhada.
Nosso destino Hospital de Órbigo. Andamos 32 km em 8 horas.
Pelo caminho passamos por Fresno del Camino, Oncina de Valdeoncina, Chozas de Abejo, Villar de Mazarife, Villavante e Puente de Órbigo.
Olha aí, que lindinhos nós dois no pátio do albergue de Hospital de Órbigo:
Foi para Santa Catalina de Somoza que rumamos no nosso vigésimo primeiro dia de andanças.
Depois de passar por Villares de Órbigo, Santibanez e San Justo de la Vega, chegamos a Astorga. Cidade grande, Astorga nos mostrou sua bela catedral e o palácio episcopal concebido por Gaudí, em cuja torre habitava uma família cegonha.
Depois de explorar a cidade, seguimos por Valdeviejas e Murias de Rechivaldo, completando em 6 horas os 25 km desse dia.
Chegamos a Santa Catalina de Somoza ainda a tempo de testemunhar um lindo pôr-de-sol.
Na manhã seguinte, ao sair de Santa Catalina, perdi meu chapéu verde-amarelo em algum lugar... e segui a caminhada sem ele.
No trajeto desse dia estavam El Ganso e Rabanal del Camino. Logo depois a temida Foncebadón, que Paulo Coelho descrevia como um povoado cheio de perigosos cães que costumavam atacar os peregrinos. Pois passamos pelas ruínas de Foncebadón sem um único latido...
Mais adiante, chegamos à famosa Cruz de Ferro, fincada na montanha de pedras levadas pelos peregrinos.
Diz a lenda que cada peregrino deve carregar de sua terra natal uma pedra e depositá-la ali, ao pé da Cruz de Ferro acompanhada de um pedido.
Eu levei a minha, pequena.
Esteves carregou uma maiorzinha, oriunda de uma viagem anterior a São Tomé das Letras.
Olha ela aí do lado...
Meu pedido?
Já não me lembro mais.
O do Esteves?
Não sei. Quem sabe um dia, quando resolver publicar suas memórias do caminho , ele nos conte.
Passando por Manjarín comemos um sopão num albergue do caminho.
Seguimos para El Acebo e, por fim, Riego de Ambrós El Acebo, nosso destino nesse vigésimo segundo dia. Foram 31 km em 9 horas.
No dia seguinte, descemos por um caminho íngreme e tosco até chegar a Molinaseca. Dali fomos na direção de Campo e Ponferrada.
Bem na frente do Castelo dos Templários de Ponferrada, levei um belo tombo, com mochila nas costas e tudo. Acho que algum templário me empurrou... Ou será que tropecei?
Na seqüência, passamos por Camponaraya e chegamos ao nosso destino desse nosso vigésimo terceiro dia: Cacabelos. Contabilizando: 26 km, 6 horas.
O vigésimo quarto dia, passamos caminhando por 6 horas e meia os 26 km que nos separavam de Vega del Valcarce. Pelo caminho, percorremos as terras de Pieros, Villafranca del Bierzo, Pereje, Trabadelo, Portela e Ambasmestas.
E assim, chegamos à Galícia, no vigésimo quinto dia de caminhada. Olha eu aí, com o rosto ainda marcado pela queda do dia anterior... Andamos pouco - 12 km em 3 horas - para chegar a outra das famosas cidades do Caminho de Santiago: O Cebrero.
Na andança, fomos deixando pra trás Ruitelán, Herrerías, La Faba e Laguna de Castilla.
O Cebrero está no alto das montanhas galegas.
Pequena e misteriosa, é uma cidadezinha encantadora, com a torre da Igreja de Santa Maria velando por sobre os telhados das casas de pedra.
Com tanta andança, nossa credencial já não tinha mais espaço para carimbos. Foi necessário acrescentar uma folha extra para que pudéssemos ter nossos sellos até o final da jornada.
Balanço parcial:
584 km
177 horas e meia